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Redes sociais viram arma contra o despejo

A vida de Maria José virou um verdadeiro inferno. Após se separar do marido e perder o trabalho, a espanhola de 55 anos passou a receber telefonemas quase diariamente com ameaças de despejo. Motivo: sem dinheiro, ela não paga o financiamento do apartamento há mais de dois anos.

O drama aumentou há poucas semanas quando chegou o aviso de que o despejo seria executado na última quarta-feira. O oficial de Justiça e o advogado do banco, porém, desistiram. À porta da casa da desempregada, mais de 200 vizinhos e solidários protestavam contra o despejo e impediram temporariamente a desocupação. Foi o 52.º caso nas últimas semanas na Espanha.

Inspirados pelas manifestações dos “indignados” da Porta do Sol em Madri, mobilizações como essas começaram a se espalhar há pouco mais de um mês. Com um discurso que pede a mudança da legislação imobiliária e das práticas bancárias, o movimento ecoa nas redes sociais e chega às ruas em pequenos protestos -com dezenas ou poucas centenas de pessoas- em frente a cada apartamento a ser desocupado. A Espanha amarga uma grave crise econômica e taxa de desemprego recorde de 21%, a maior da Europa.

Maria José vive em um apartamento no térreo de um prédio simples em Ciudad Lineal, bairro de classe média na metade do caminho entre o Aeroporto de Barajas e o centro de Madri. Por ele, deveria pagar 1.200 (cerca de R$ 2.700) mensais à Caja de Ahorros del Mediterraneo.

A última parcela foi paga no fim de 2008, quando foi despedida. Desde então, faz malabarismos para sustentar a família e esqueceu o carnê no fundo da gaveta. Após mais de dois anos sem trabalho, Maria José já não tem mais direito aos programas sociais para desempregados do governo espanhol.

Também sem emprego, a filha de 24 anos não pode reclamar por auxílio simplesmente porque nunca trabalhou. A única renda da família são os 688 mensais recebidos em nome do filho de 25 anos em um programa do Ministério da Saúde. Segundo laudo médico, o jovem não tem 77% dos movimentos do corpo.

Há algumas semanas, quando o carteiro entregou o aviso com o dia e a hora do despejo, foi a filha que decidiu correr para pedir ajuda.

Mobilização. Inspirada pelos primeiros casos de manifestações que impediram despejos, foi a uma das reuniões dos “indignados” que deixaram o centro das cidades e passaram a se encontrar nos bairros. Lá, contou o drama e imediatamente várias pessoas começaram divulgar o caso pela internet. A história é quase a mesma em todos os outros 51 casos registrados até agora. Como o despejo é obrigatoriamente programado, a convocação se espalha pelo Twitter, Facebook e Tuenti (um Orkut local).

“Ações como a dos acampados relançaram todos esses movimentos sociais e criaram sinergias muito criativas entre ativistas e gente comum que protesta pela situação de crise”, diz Javier De Rivera, sociólogo da Universidade Complutense de Madri e prepara tese de doutorado sobre redes sociais. “O Twitter ou o Facebook apenas difundem os eventos. São as pessoas que criam e executam os movimentos”.

A partir das 8h da quente manhã da última quarta, chegaram mais de 200 dessas pessoas ao número 140 da tranquila e estreita rua Virgen de Lluc, endereço de Maria José. Com placas e gritos como “parem os despejos” e “hipotecas mais justas”, a principal reclamação do grupo é o fato de que a entrega do imóvel ao banco não cancela a dívida do mutuário.

Maria José sabe bem o que é isso. Em 2005, conseguiu 157 mil no financiamento para um apartamento que, na época, foi avaliado em 240 mil. Hoje, mesmo após pagar três anos de prestações, a dívida alcança os 200 mil graças aos juros acumulados, multas e encargos dos advogados. O apartamento, porém, vale menos de 150 mil após o estouro da grande bolha espanhola. Ou seja, mesmo se devolvesse o apartamento e ficasse na rua, a desempregada ainda deveria 50 mil.

Realidade. “Ninguém quer morar de graça. Todos querem pagar, mas que o pagamento seja dentro da realidade das famílias. E essa realidade mudou radicalmente”, reclama o coordenador da Plataforma de Afetados pelas Hipotecas em Madri, Eloi Castelló. O grupo tem representantes em várias cidades espanholas e entregou dois projetos para mudar a legislação nos últimos meses ao congresso. Nas duas vezes, o texto foi rechaçado.

Entre os manifestantes que tentavam se proteger do calor de 32º C, muitos lembravam do dado divulgado no dia anterior pelo governo: a Espanha ainda tem 800 mil imóveis construídos que nunca foram habitados. Somadas as residências usadas, são mais de 1,5 milhão de casas e apartamentos vazios.”Talvez seja por isso que os bancos desistem do despejo. Eles não querem sujar ainda mais a imagem com esse drama”. Diferentemente do Brasil, a legislação espanhola não protege quem tem apenas um imóvel e o usa como residência.

Os simpatizantes do drama de Maria José reconhecem que os casos das últimas semanas, entretanto, são um ponto fora da curva na dramática realidade espanhola. Dados oficiais mostram que 14.491 famílias foram despejadas nos três primeiros meses do ano no país. Ou seja, 161 a cada dia.

Nesses casos, o despejo sempre é feito por uma “troika” composta por um oficial de Justiça (que bate à porta do imóvel e entrega oficialmente o documento de despejo), o advogado do banco (que acompanha o procedimento como parte interessada) e um chaveiro (para abrir a casa em caso de resistência e trocar fechaduras da casa após a saída – forçada ou não – da família). A polícia só é chamada em casos de resistência violenta.

Nada disso foi necessário no apartamento de Ciudad Lineal. Com Maria José e os filhos dentro de casa, Castelló buscará agora alguma solução. Na Caja del Mediterraneo, tentará recalcular a dívida e reprogramar pagamentos para quando alguém da casa conseguir um trabalho. Junto à prefeitura, Castelló vai tentar acelerar a cessão de uma casa popular para a desempregada que pediu o benefício há mais de dois anos.

Enquanto isso, no escaldante verão espanhol, Maria José tenta encontrar um emprego.

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